Será que a Konami está de volta aos games? Desde o ano passado, eles lançaram três jogos de alto orçamento, sendo dois Silent Hills e um Metal Gear. Ok, dois deles eram remakes, mas Silent Hill F não é. Temos aqui um jogo inédito nesta série tão querida, o primeiro desde Downpour, de 2012. Deixa eu começar com honestidade: eu só joguei dois Silent Hills até hoje, o remake do segundo e este. Mas sou bem escolado no gênero terror e posso dizer com todas as letras que Silent Hill F é realmente impressionante. Mais ainda se você pensar que a Neobard Entertainment parece ter trabalhado apenas em portsremasters antes deste.

Apesar do nome, Silent Hill F não se passa na cidade estadunidense fictícia que intitula a série, mas no Japão. Isso dá ao jogo um sabor todo especial, pois ele realmente se insere na cultura local, especialmente no jeito oriental de se fazer terror. É um jogo de terror, mas a sensação de jogar é muito diferente de um Resident EvilCronos ou Dead Space. E também faz o suficiente para se diferenciar de Fatal Frame.

REVIEW SILENT HILL F

Vamos começar falando do gameplay. Ao contrário da imensa maioria dos jogos de terror com combate, Silent Hill F não tem armas de fogo. O combate é o de um hack and slash com prioridade à animação e durabilidade de armas. São duas coisas que não me agradam. Prioridade à animação torna tudo mais truncado e menos gostoso do que, por exemplo, um Bayonetta. Por outro lado, nenhum jogo já feito foi beneficiado por um sistema de durabilidade de armas. Você pode argumentar que os dois sistemas combinam mais com um jogo de terror, e eu não discutiria isso.

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Acredito que o único jogo de terror que eu joguei antes com jogabilidade perto de um hack and slash foi Callisto Protocol (que eu adoro!). Mas Silent Hill F é mais lento e punitivo. Porém, não é injusto ou difícil demais, pelo menos não na dificuldade padrão. Eu nunca fiquei sem armas nem sem recursos para consertá-las ou me curar. Pelo contrário, meu inventário ficou o jogo todo cheio demais. Eu tinha medo de jogar fora itens de cura não porque estava precisando deles (não estava), mas porque tinha medo de precisar no futuro (não precisei). Em outras palavras, Silent Hill F é ótimo para criar o medo e ansiedade no qual os jogos de terror brilham, sem encher a ação de repetição.

Mesmo quando você morre, há checkpoints bem distribuídos e dificilmente é necessário voltar muito. Há saves manuais em altares, onde você pode fazer upgrades e tal, mas o jogo também autossalva com frequência e de forma não intrusiva, mostrando apenas um ícone no canto da tela. Mas talvez as características mais marcantes de Silent Hill F sejam a atmosfera, o visual e a narrativa.

A ATMOSFERA

Eu acho muito legal como a neblina, tecnicamente necessária para os Silent Hills de outrora rodarem, se tornou uma característica visual da série. Mas o fato de a história acontecer no Japão muda tudo. Os cenários, obviamente, são diferentes, mas todo o design de monstros e construção do medo são diferentes também.

Por exemplo, não sei onde começou isso, mas jogos de terror que se passam no ocidente têm uma obsessão nada saudável por carne e cenários orgânicos. CronosDead Space e tantos outros costumam ter cenários preenchidos por nojeiras que parecem intestinos vivos. Aqui o cenário vai ficando cada vez mais poluído com marcas de medo, mas ao invés de carne viva, são flores. Bem mais bonito e igualmente assustador.

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Não acha?

O jogo te ensina a ter medo das flores vermelhas que se espalham pelo mundo, então nunca a sensação é gostosa e libertadora como cavalgar pelos campos floridos de Ghost of Tsushima. As flores também são usadas nos monstros, que são ao mesmo tempo bonitos e nojentos. Uma tremenda conquista artística. E eventualmente Silent Hill F acaba usando tripas e carnes também, mas felizmente é num nível bem menor do que em seus congêneres cansados. Assim, Silent Hill F parece um Silent Hill com a neblina e a história cheia de subtextos, mas funciona muito bem como um capítulo japonês da série.

A HISTÓRIA DE SILENT HILL F

Talvez este seja seu maior triunfo. Há duas histórias aqui. A literal, que você vê acontecendo nas cutscenes; e a metafórica. A força está na metafórica, que é também interpretativa, mas acredito que qualquer pessoa que pense nela verá a história de Silent Hill F como uma dissertação sobre as limitações, mazelas e sofrimentos do feminino.

É uma temática perigosa, considerando que o Jonas Jogador já fica incomodado simplesmente de controlar uma mulher num videogame. Que dirá fazer isso em uma história que trata sobre relacionamentos abusivos e o papel da mulher na sociedade? Especialmente considerando que o papel “esperado” por sociedades conservadoras é que a mulher apoie os homens de sua vida a ponto de sumir na sua própria história.

Esta é a pegada da história de Hinako, uma jovem que valorizava sua personalidade independente mas que, ao longo da vida, se vê desaperecendo em meio a suas relações sociais. Tudo em Silent Hill F parece funcionar como uma metáfora para o feminino, e certamente vídeos com sua “história explicada” vão bombar nas internets.

O QUE NÃO GOSTEI EM SILENT HILL F

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A parte do ritual é literalmente difícil de assistir.

Eu amei Silent Hill F, mas ele toma decisões como um jogo que me incomodam. Tem um monte de troféus, por exemplo, cujo objetivo é passar por chefes e objetivos sem ser atingido ou sem morrer. Isso é muito chato, mas mais chato ainda é que o jogo exige ser terminado no mínimo três vezes para você ver a história completa.

Isso é algo que já deu errado no terrível Nier Automata, e eu simplesmente não quero jogar Silent Hill F de novo para ver pequenas variações na história ou algumas novas cutscenes. Eu tenho vontade de jogá-lo de novo um dia, sim, mas prefiro fazer isso como fiz com Resident Evil Village, simplesmente porque gostei muito da experiência, não para sentir que a completei e para ver umas migalhas novas.

Tem inclusive um monte de troféus que são conquistáveis apenas em campanhas repetidas, e não são simplesmente os troféus para ver os cinco finais (embora estes existam também). Talvez isso tudo seja legal para você. Talvez você veja com bons olhos jogar de novo com novidades, e tudo bem se for o caso. Eu, particularmente, gosto de terminar uma experiência narrativa crente que vi tudo que ela oferece, e então posso simplesmente pensar no que vivi com ela.

Isso é meu lado TOC completista falando. Silent Hill F é um jogo bem trabalhoso para ver tudo. Mas a boa notícia é que o jogo principal, realmente a carne florida da coisa, é muito bom e impressionante. Um jogo de terror ao mesmo tempo familiar e único.