Se você já ficou na dúvida entre usar o analógico ou pegar o controle, aqui vai uma dica: Shinobi: Art of Vengeance é daqueles jogos em que você usa o analógico só para fingir. A jogabilidade exige pulso firme, “cliques” certeiros e reflexos ninja — literalmente. O eterno Shinobi Joe Musashi quer se vingar do maledeto que matou todo mundo na sua aldeia. E é sua função guiá-lo nisso.

O combate é simples, brutal e extraordinariamente satisfatório. Cada inimigo abatido parece um espetáculo de sangue estilizado, como se você estivesse performando uma apresentação artística com violência. O parry é apenas um dos muitos ninpos que você pode ou não utilizar. E eu quase não usei depois de pegar o troféu relacionado. Não tem cena lenta, tem apenas lâminas rápidas, inimigos voando e você gritando “Monstro bobo e feio!” — ou algo parecido.

QUANDO A HISTÓRIA É O ACOMPANHAMENTO

Se você está esperando uma narrativa profunda, com reviravoltas filosóficas e dilemas familiares dignos de novela das oito, vai se decepcionar. A trama é rasa, quase tão rasa quanto a última desculpa que seu amigo arrumou pra não lavar a louça. Musashi quer vingança, pronto. O jogo não se perde com monólogos existenciais — ele se perde é em inimigos, plataformas e traições visuais.

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Eu também costumo ficar segurando a espada em posição de luta quando estou próximo da minha esposa grávida.

Mas isso, amigo meu, não é defeito — é recurso. A história rápida funciona para te manter motivado entre um estrangulamento e outro movimento acrobático. E, em última instância, quem liga para narrativa quando você está explodindo ninjas e os pedacinhos estão voando? O jogo entende que vingança se faz com aço, não com palavras emocionais. Talvez com uma pitada de vento preto também.

REVIEW SHINOBI ART OF VENGEANCE

Gráficos e performance mostram o que podemos chamar de estilo afiado. O jogo é lindão, com gráficos que puxam forte do estilo animê. Os cenários talvez deixem um pouco a dever. Eles carecem de cores e, na maior parte da campanha, são cenários industriais e feiosos. Este já era um problema nos Shinobi de Mega Drive, aliás.

E aí chegamos ao maior pecado, que é resolvido com opções de acessibilidade: checkpoints limitados. Como todo metroidvania moderno, o sistema de saves é via fogueiras, e estas, apesar de servirem como pontos de fast travel, são bastante limitadas. É comum você morrer e voltar 10, 15 minutos. Curiosamente, existe uma opção no menu de acessibilidade que ativa checkpoints frequentes e faz você voltar sempre mais próximo de onde morreu.

Achei isso sinceramente hilário. Tem muito babaca defendendo saves limitados, e agora eu quero ver. Quem realmente vai manter isso no padrão? Quem em sã consciência vai escolher jogar 15 minutos de exploração entediante de novo se pode simplesmente ressurgir na frente do desafio que te venceu? Eu realmente quero saber. Afinal, não existem troféus para jogar da forma “burra”, não tem nenhum incentivo além da frustração. Será que ainda vai ter gente que vai jogar “como planejado”?

A VINGANÇA DOS METROIDVANIAS

Shinobi Art of Vengeance é um metroidvania, mas tenta te enganar. Ele tem divisões  em fases, mas cada uma delas tem dezenas de breguetes escondidos que você não pode pegar da primeira vez que passar por ali. Ele exige jogar fases posteriores para ganhar novos poderes, e então voltar para as anteriores.

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É um tanto conveniente. Você pode escolher a fase pelo mapa mundi, e iniciá-la de qualquer checkpoint/fogueira previamente ativado. Há duas diferenças para um metroidvania tradicional: os desenvolvedores não precisaram combinar o mundo inteiro em um mapa que faz sentido, já que cada área é isolada da outra. A outra diferença vem disso, é claro: você não pode se teleportar direto de uma fase para a outra sem sair para o mapa mundi.

TRILHA, SOM E SILÊNCIO DRAMÁTICO

Em termos de áudio, Shinobi não chega a brilhar, mas não faz feio. As lâminas cortando o ar, o som ambiente, o sussurro de uma ameaça — tudo cria clima. A música é atmosférica ou inexistente, com apenas alguns temas mais melodiosos ou batidão.

O problema? Quando não há música, o silêncio é pesado. Às vezes exageradamente pesado. O silêncio dramático interrompe a ação com uma pausa desconfortável, e na hora em que você mais quer lutar, fica ali, encarando o nada. Mas, vamos admitir, essa pausa te engana — é o momento que te faz baixar a guarda, então quando voltar a música, bam! Musashi pega na espada e manda ver!

COMBATE DE NINJAS

2025 é um bom ano para fãs de ninjas, onde me incluo. Semanas atrás, tivemos o excelente Ninja Gaiden Ragebound e agora temos também Shinobi Art of Vengeance. Daqui a alguns meses, ainda teremos a continuação de maior orçamento, Ninja Gaiden 4. Por enquanto, podemos apenas comparar RageboundArt of Vengeance e, no meu livro, o primeiro vence esta competição.

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São dois jogos parecidos. Um deles é em pixel art e o outro é desenhado, e ambos têm um tremendo apelo visual. A principal diferença, para o jogador, é que Ragebound é linear, enquanto Art of Vengeance é aberto. Particularmente, não vejo a possibilidade de um jogo aberto ser melhor do que um linear quando ambos fazem parte do mesmo gênero e são parecidos em quase tudo. Linear é sempre automaticamente melhor. Dito isso, Shinobi também é muito bom. Surpreendentemente até.

SATISFAÇÃO SANGRENTA POR METRO QUADRADO

Se você está procurando um jogo para refletir sobre seus sentimentos ou aprender filosofia zen, passa reto. Shinobi: Art of Vengeance é puro entretenimento visceral, um soco na laringe estiloso que não se desculpa por isso. Bem do jeito que eu gosto. Com luta fluida, ritmo acelerado e punhos — ou espadas? — nervosos, ele entrega exatamente o que promete: vingança ninja.

É uma experiência coesa e empolgante, e você sai dela suado, sujo e com dedos sujos de “ócio artístico”. Não é profundidade, mas é arte — e às vezes, a melhor arte é crua e ensanguentada. E se isso não é motivo suficiente para você ficar empolgado, sempre podemos procurar filosofia em RPGs ou em jogos de terror.

REVER GERAL
Nota:
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
review-shinobi-art-of-vengeance-a-vinganca-dos-metroidvaniasDisponível: Xbox One, Xbox Series, PS4, PS5, Switch, Windows<br> Analisada: PS5<br> Desenvolvedora: Lizardcube<br> Editora: Sega<br> Lançamento: 26 de agosto de 2025<br> Gênero: Metroidvania<br>