Eu gostei muito do primeiro High On Life. Gostei consideravelmente menos de High On Life 2. Este é um daqueles jogos em que dá para argumentar que o mais importante são as piadas e as atuações e estas continuam ótimas. Apesar de Justin Roiland (de Rick and Morty) não estar mais envolvido com a Squanch Games depois das besteiras que fez, o roteiro se mantém afiado. A ausência de Roiland é sentida apenas no fato de que a pistolinha Kenny, que originalmente usava sua voz de Morty, simplesmente foi retirada do jogo.

REVIEW HIGH ON LIFE 2

Meu problema com High On Life 2 é diretamente relacionado ao gameplay. Ou, para ser mais exato, às profundas mudanças feitas neste aspecto. O primeiro jogo era um FPS metroidvania. Ou seja, era focado no tiroteio e na exploração, mas o caminho da história era basicamente linear, com incentivos para voltar a fases anteriores com novas habilidades.

Aqui a coisa é consideravelmente maior. E você sabe o que eu penso: maior dificilmente significa melhor. De tudo que você faz em High On Life 2, atirar é discutivelmente o que você faz menos. Você passa muito, MUITO tempo conversando com uma infinidade de personagens. Há longos trechos, aliás, em que você segura as armas de forma “não agressiva” e que os tiros são desativados. Um exemplo é uma das primeiras fases, em que você precisa descobrir um assassino conversando com geral e pegando dicas de motivação no que eles falam.

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High On Life 2 é cheio de momentos assim. E não me entenda mal, ele transborda criatividade. Há um chefe, por exemplo, que entra na sua roupa, e para vencer você precisa entrar nos menus do jogo e bater nele lá com um personagem que funciona como um cursor de mouse. Eu nunca vi algo assim antes, e com certeza me fez rir. Porém, minha opinião é que o jogo é muito cheio de (boas) ideias como essa, e isso veio em detrimento do tiroteio.

Ele também gastou muito tempo e dinheiro licenciando coisas como alguns dos piores filmes e games da história. O primeiro já tinha isso como piada, mas este traz algumas coisas simplesmente difíceis de explicar, como uma versão emulada de Bible Adventures ou de Gourmet Warriors.

NÃO É UM MUNDO ABERTO, MAS…

High On Life 2 não é um mundo aberto. E para continuar a história normalmente você só precisa seguir waypoints lineares. Porém, ele é em quase todo momento extremamente largo. E praticamente todo mundo fala. Pra caramba. Sem exagero algum, você pode pegar qualquer NPC do jogo e passar cinco minutos ouvindo tudo que ele tem a dizer. Não sei se High On Life 2 é o game com mais voice acting da história, mas sem dúvida é o que mais investiu nisso em seus NPCs.

Você sabe, eu tenho TOC. Me sinto bem ao terminar um jogo tendo visto tudo que ele tem a oferecer. E tanto High On Life 1 quanto Trover Saves The Universe já forçaram um bocado a amizade neste aspecto. Mas High On Life 2 passa muito dos limites. Tem tanta gente falando o tempo todo que é comum dois ou mais diálogos, inclusive aqueles que avançam a história, acontecerem ao mesmo tempo. Chega ao ponto em que é impossível pensar que a Squanch Games deveria ter investido menos em atores e roteiristas para realizar as suas piadas, e mais no aspecto técnico. Isso porque…

TECNICAMENTE HIGH ON LIFE 2 É TERRÍVEL

O design de High On Life 2 é muito bom. Eu adoro seu visual cartoon e seus cenários. Mas tecnicamente, pelo menos nesta versão de Xbox Series X, ele está muito aquém do que a gente espera. Isso começa na resolução, que parece usar um upscaling extremamente agressivo. A imagem tem qualidade muito baixa, cheia de ruídos e pontinhos, que distraem muito. Mas nada é pior do que os movimentos.

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Nesta imagem eu só estou descendo o texto, mas olha como fica.

Eu nunca vi movimentos tão embaçados e poluídos como em High On Life 2. Fiquei com a sensação de que ele usa, além do upscaling, um frame generation bem forte, mesmo nos consoles. Eu capturei muitas imagens do jogo, mas a maioria delas, especialmente das cenas de ação, tem o visual dos personagens tão poluído quanto o texto acima. Infelizmente, a baixa qualidade técnica não se limita aos gráficos.

O funcionamento também é bem quebrado. Você vai encontrar de tudo. Tem vozes que aparecem sem você ver os personagens e o contrário, gente que fala com você, mas não tem vozes. Tem objetivos que demoram para ser atualizados, outros que não são atualizados nunca e um monte de momentos em que você precisa restaurar o checkpoint para continuar avançando. Por exemplo, parte do último chefe envolve andar de skate e, ao passar por um portal, o personagem ficou travado na parede e precisei reiniciar.

DIVERSÃO

Apesar de ter muitos problemas com o jogo, tanto tecnicamente quanto no design, estaria mentindo se dissesse que ele não me divertiu. A ausência de Roiland é totalmente invisível, uma vez que o roteiro e as piadas ainda parecem totalmente tirados de Rick and Morty. Apesar da falta de tiroteios, eu gosto de ver um jogo que cria e arrisca tanto em coisas diferentes. Ao contrário de um GTA da vida, aqui você nunca sabe exatamente o que vai acontecer. Uma missão pode ser puro FPS linear, enquanto em outra você só resolve puzzles ou pula de uma plataforma para outra.

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Eu simplesmente amo este tipo de humor. A fase em que você vai para a Con-Con, uma convenção de convenções, por exemplo, é de gargalhar alto. Você passa de uma convenção absurda a outra (uma focada em estacionar e outra em assassinatos, para citar duas) com grandes variações de gameplay e ótimas piadas frequentes.

O jogo também é consideravelmente mais longo que o primeiro. Apesar de estar com ele quase uma semana antes do lançamento, eu simplesmente não tive tempo de terminar antes do embargo cair. Você pode argumentar, e eu faço isso, que o primeiro é mais focado, mas se você determina o valor de um videogame por sua duração, High On Life 2 cresceu muito. Em todos os aspectos.

E esta é a lição que High On Life 2 precisa aprender. Maior não é necessariamente melhor. O jogo tem muitas boas ideias e muita diversão, mas a maior parte de sua duração é um tanto entediante também.