Muitas coisas me agradam em Apanhador de Almas, novo terror sobrenatural nacional. Aqui temos a história de quatro jovens bruxas que encontram uma bruxa mais velha para fazer um ritual. Nunca fica muito claro o que elas queriam com o ritual, mas fica claro desde que o filme começa que vai dar ruim.

E como nos melhores filmes do gênero, o “ruim” é totalmente evitável. Vejamos, nossas amigas pegaram os serviços de uma bruxa mais experiente, mas assim que o ritual parece ter dado errado, elas imediatamente param de seguir as recomendação da senhora. Ora pois. Sobrenatural ou não, se você está fazendo qualquer coisa sob o timão de alguém mais experiente, você segue as dicas, certo? Senão, claro, a possibilidade de dar ruim é grande.

APANHADOR DE ALMAS

O ruim em questão é que é legal. O personagem título, o tal do Apanhador de Almas, aparece para as moças e dá as regras: quatro delas precisam morrer para uma sobreviver. E é isso. O jogo mortal está começado. Permita-me agora citar as coisas que me agradam no filme.

A começar pelo gênero “jogo mortal”. Os melhores filmes de terror a que já assisti na vida são aqueles que prendem pessoas diferentes em uma situação e as colocam contra as outras. Em geral não é um subgênero sobrenatural, mas isso acaba dando um charme todo especial aqui.

Outro charme é o elenco totalmente feminino. Mulheres sempre foram importantes em filmes de terror, daí o mito da “final girl” e tal. Mas não me lembro de ter visto outro filme do gênero antes – especialmente do subgênero jogo mortal – com um elenco totalmente feminino.

BRUXAS

Apanhador de Almas, Kiara Castanho, Delfos

Por fim, gosto muito de as personagens serem todas bruxas. Não bruxas naquele estilo Disney, com verrugas no nariz e maçãs envenenadas, mas algo mais próximo das meninas que se dizem bruxas na vida real. E a gente sabe que elas não são necessariamente más – como qualquer tipo de ser humano, claro.

Apanhador de Almas é bom, muito bom, durante mais da metade da sua duração. Ver as meninas discutindo formas de se salvar ou pensando quais delas devem ser sacrificadas e quais merecem viver é muito “beijo de chef”. É bem minha geleia em filmes de terror, quero dizer.

Infelizmente, o filme se perde bastante em seu último ato. Ele já tinha demonstrado não ser especialmente criativo em suas decisões de roteiro. Há várias cenas inteiras aqui que você já viu antes, e a ordem em que as personagens morrem é totalmente esperada e a mais clichê possível. Mas o que pega é mesmo o último terço.

ATO 3: DA RESENHA E DO FILME

A coisa degringola depois que as meninas resolvem sair da casa. Todo o trecho que se passa no Limbo é péssimo, muito chato, e transborda baixo orçamento. E este último não é uma crítica que faço ao filme no geral, embora as poucas cenas de violência usem um sangue claramente bem falso.

Eu achei que seria uma cena ruim, e depois ele voltaria a mostrar a que veio, mas não. Apanhador de Almas nunca se recupera. Se ele já flertava com o óbvio e o clichê nos dois primeiros atos, no terceiro ele vai totalmente para o caminho “meu primeiro filme de terror”, inclusive com uma obrigatória viradinha que simplesmente nada acrescenta à história ou ao tema. E pior, não surpreende, pois o emaranhado de clichês neste trecho era tamanho que se torna óbvio que ele teria uma viradinha – e que seria exatamente esta.

Quando falei do “meu primeiro filme de terror”, estava me referindo especificamente ao fato que boa parte das pessoas só vão se surpreender com Apanhador de Almas se não tiver assistido a filmes do gênero suficientes. Mas este não é você. Você, como eu, já é um escolado do cinema de medo, então provavelmente vai soltar resmungos audíveis quando ele seguir por seus óbvios caminhos.

E é uma pena. Apanhador de Almas faz muita coisa certa. Com este mesmo argumento, e um roteirista mais criativo, seria fácil transformá-lo em algo realmente especial. Mas, ei, é um filme de terror sobrenatural que eu gostei e recomendo, ainda que com ressalvas. E você sabe como isso é raro por aqui.