Chegou a hora de falarmos de Mafia The Old Country. Não sei se já falei aqui antes, mas Mafia foi o primeiro jogo de mundo aberto que gostei. Talvez você se lembre de eu ter falado que o primeiro foi Assassin’s Creed, e isso também é verdade. Como o caso de CassiopeiaToy Story, a história é mais complicada do que os fatos. Mafia veio antes, mas ele é realmente um jogo de mundo aberto? Não tem sidemissions e não tem mais nada para fazer além de seguir a história. Muitos hoje dizem que ele é um jogo linear em um pacote aberto, e por isso mesmo que eu gostei. Eu não sentia que o jogo gastava meu tempo com pentelhações comuns no gênero popularizado por GTA.

E assim a série seguiu. O único Mafia que realmente é mundo aberto é o terceiro, e ele é uma porcaria inexorável. A Hangar 13 simplesmente não consegue fazer mundo aberto. E que bom que eles assumiram isso. Pois é exatamente o retorno às raízes e a falta de supérfluos que tornam Mafia The Old Country especial. O que temos aqui é uma história. Cá entre nós, não é uma história especialmente boa ou criativa, ou mesmo única. Mas ela é extremamente turbinada por se encontrar em um jogo, por ser, ainda que minimamente, interativa. Isso pode nos levar a pensar nos limites da narrativa, do gameplay, e como um pode servir ao outro de forma realmente especial.

REVIEW MAFIA THE OLD COUNTRY: A HISTÓRIA

Temos aqui uma história de Máfia acontecida na Itália. A Empire Bay dos outros jogos é citada, mas os personagens ainda não foram para lá. Tudo acontece no início do século XX. A história é bem clichê e segue absolutamente tudo que você espera. Um exemplo sem spoilers é o personagem Cesare, que quando te conhece vem com soberba e arrogância e parece ser um babaca. Mas se você já assistiu a filmes suficientes antes, sabe que ele se tornará um grande amigo.

Há um outro aspecto mais spoilerento que eu debati comigo mesmo se deveria falar aqui. Vou falar da forma mais sem spoilers que conseguir, mas se considere avisado. Nossa amizade não será afetada se você pular este parágrafo. Dito isso, logo no início, quando a filha do chefe e o protagonista se conhecem e começam a se engraçar um para o outro, você provavelmente já tem uma boa ideia do caminho que a história vai seguir, certo?

REVIEW MAFIA THE OLD COUNTRY: O JOGO

Mafia The Old Country, Mafia, 2K, Hangar 13, Delfos

Boa parte de Mafia The Old Country pode ser definido como um walking simulator. Você anda de um lado para o outro enquanto personagens falam com você. Eventualmente, dirige um carro ou monta num cavalo enquanto personagens falam com você. Mais importante, você assiste a uma enorme quantidade de lindíssimas cutscenes. Com personagens falando com você. Eventualmente, tipo depois de várias horas de jogo, é possível de fato controlar cenas de ação. O gameplay é o de um cover shooter intercalado com furtividade. Nestas cenas a maioria dos inimigos não fala com você. Assim como Red Dead Redemption 2, ele coloca a narrativa acima da diversão. Assim, todas as animações são laboriosas. Um exemplo é que você precisa checar todos os presuntos individualmente para se manter com munição, e isso inicia uma animação bem longa e não pulável.

Em determinado ponto, eu estava atrás de uma cobertura tateando um presunto e segurei o botão de mirar para poder atacar assim que pegasse munição. O personagem terminou de passar a mão no morto e levantou, vulnerável a tiros. Mas ele ainda não tinha pegado a arma das costas, uma animação que demora alguns segundos. Segundos suficientes para que eu morresse. E isso me leva à minha principal reclamação: Mafia The Old Country tem as telas de carregamento mais longas da geração. Nem parece que o jogo está instalado num SSD. Lá na época do Witcher 3, era comum eu mudar para o easy não porque achava o jogo difícil, mas porque ficava de saco cheio de esperar longos carregamentos cada vez que perdia. Senti isso novamente em Mafia The Old Country e ó, não tava com saudade, não.

A SOMA É MELHOR DO QUE AS PARTES

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à esquerda, Cesare, o babaca que vira um grande amigo. À direita, Enzo, o protagonista.

Então a gente tem uma história clichê que parece um filme amador, e um gameplay quase inexistente, mas que constantemente se coloca entre o jogador e a diversão. Por que diabos eu amei Mafia The Old Country então? Contexto, meu amigo. Jogar uma história é muito mais emocionante e envolvente do que simplesmente assistir ou ler uma. É de fato a única forma de narrativa em segunda pessoa, e isso faz a diferença.

Por um lado, a gente pode argumentar que Mafia The Old Country tem uma história tão clichê porque ele simplesmente se limita a repetir o que grandes filmes do gênero já contaram. E talvez seja isso mesmo. Pense em um filme de Máfia, e imagine que você agora é capaz de jogá-lo. Este é o serviço que Mafia The Old Country fornece. E é valioso, ainda que eu admite que gostaria mais dele se tivesse uma história mais criativa.

É diferente curtir um bangue-bangue explosivo como os muitos da franquia Gear of War ou estar ali lutando contra quem acabou de matar seu mentor. Não é apenas o Enzo que está vingando o assassinato de seu mentor. É você, e o mentor é seu também. Assim, Gears of War é sem dúvida um jogo melhor do que Mafia The Old Country. Mas cada cena de ação aqui é muito mais impactante, mesmo com um gameplay bem mais primário.

A REALIZAÇÃO DA HISTÓRIA

Isso fica ainda mais impressionante e envolvente porque as cutscenes são realmente lindas e de um enorme esplendor técnico. Estes bonequinhos de CG simplesmente atuam melhor do que 90% dos atores brasileiros da Rede Globo. Claro, é um enorme esforço colaborativo. A dublagem é excelente, a captura de movimentos deve ter sido exaustiva, e tudo foi animado e desenhado por um time que deve ter alguns dos melhores animadores da nossa época.

Você não sente que está assistindo a um live-action, mas consegue perceber completamente uma nuance de sentimentos simplesmente impressionante. E daí temos o roteiro, que se não é criativo no argumento, no que acontece na história, consegue fazer você se importar com estes personagens, que são todos muito bem escritos e muito bem atuados.

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O Leo é o da esquerda, e o que está fazendo suas necessidades da ponte é Cesare.

Aliás, apesar dos pesares, tem muitas coisas que gostei na história em si. O consiglieri do Don Torrisi, Tino, é um babaca agressivo, bem diferente do tradicional personagem centrado que normalmente ocupa a posição. E já que falamos disso, um personagem importante na história é Leo Galante, o consiglieri de Mafia II. Ele já é um cara legal aqui, mas é jovem, e jovens são sempre meio babacas. O roteiro o trata com respeito e é muito legal ver o cara que era sinal de inteligência e comprometimento em outro jogo sendo um pouquinho – só um pouquinho – mais cabeça quente.

O MEDO DE SER APENAS UMA HISTÓRIA

Apesar das minhas críticas ao gameplay e à obviedade da história, o que realmente prejudica Mafia The Old Country é o quanto ele se esforça para se justificar como um jogo. Por exemplo, na campanha, você não pode explorar seu mundo aberto livremente. E por isso tem a opção de free roam, onde você pode ir aonde quiser. Para justificar este modo, encheram o mundo com uma quantidade pornográfica de colecionáveis.

E para ser ainda mais agressivo, você não pode pegar boa parte dos colecionáveis quando os vê durante a história. Muitos deles exigem usar uma arma, o que você só pode fazer em momentos específicos na campanha. Outros ficam imediatamente fora do seu alcance, pouco depois de você receber a ameaçadora mensagem “volte para a missão ou a gente recarrega o checkpoint”.

RICO DINHEIRINHO

Da mesma forma, você pode usar seu limitado dinheirinho (do jogo, não da vida real) para comprar um monte de cosméticos, carros, upgrades e até colecionáveis. A impressão que dá é que a Hangar 13 construiu o que queria, e depois foi analisar o que constituía um jogo, e pensou em formas tacanhas de colocar essas coisas – como colecionáveis – aqui. A questão é que Mafia The Old Country não precisava disso. Só completistas que beiram o doente (como eu) vão usar o mundo aberto e sair dirigindo de waypointwaypoint para pegar todos os breguetes e ganhar alguns troféus. A maioria vai apenas jogar a história, se apaixonar pelos personagens e, quando ela acabar, ficar feliz com o que acabou de viver. E é assim que deveria ser.

Há muito sentimento negativo direcionado a walking simulators e, como o Michael Jackson tentando ser branco, Mafia The Old Country parece ter internalizado isso e feito tudo que estava a seu alcance para não ser “um desses”. Quando é o que queria ser, no entanto, Mafia The Old Country é muito mais do que a soma de suas partes. Seu gameplay e sua história não são nada marcantes, mas a combinação de ambos gera um pacote realmente especial, que você realmente vai querer conhecer.