Existe uma geração de consoles mais romântica do que a de 16-bit? Sou suspeito para falar, já que o Mega Drive esteve no meu quarto em um momento vital da minha adolescência. Mas a quantidade de jogos que saem para ele ainda hoje é considerável. Já falamos anteriormente de Demons of Asteborg, e hoje falamos de um caso parecido, Earthion, que sai para Mega Drive, mas também para todos os consoles atuais. A diferença é que Earthion tem participação daquele que provavelmente é o maior superstar dos games dos anos 90, Yuzo Koshiro.

REVIEW EARTHION

Earthion é um jogo de navinha, estilo muito comum na época. É realmente incrível o que o Mega Drive era capaz de fazer se você não limitar os jogos aos poucos megabytes de memória que cabiam em um cartucho da época. Earthion tem quase 80 mega. Quase nada hoje em dia. Eu tenho uma câmera digital profissional cujas fotos na qualidade máxima ficam com mais que isso. Porém, era simplesmente impossível de colocar tanto dado em um cartuchinho de Mega Drive nos anos 90.

Isso possibilita que Earthion vá muito além dos jogos de Mega Drive que habitam minha memória e a sua. Animação, uso de cores, músicas. O jogo talvez não seja tão técnico quanto Demons of Asteborg, mas ainda impressiona se você pensa que ele roda num Mega Drive. Não é um caso como Shovel Knight, que parece de Nintendinho, mas é complexo demais para rodar na máquina que o inspirou. É uma diferença técnica, mas é algo que, se você entende um pouco mais dessa parte (e se não entende, tudo bem também) vai ficar boquiaberto.

EU NÃO QUERO SABER DE MEGA DRIVE, CORRALES! FALA DO JOGO!

Tá bom, voz agressiva da minha cabeça. Earthion é um jogo de navinha que pega as coisas que eram comuns na época em que o gênero era popular, mas coloca sensibilidades modernas. Por exemplo, em um shoot’em up, acredito que todo mundo concorda que ficar poderoso e encher a tela de tiros é uma delícia. E também que é extremamente brochante morrer e voltar ao seu tiro padrão de “bolinha”.

Earthion, Yuzo Koshiro, Delfos

Pois as armas especiais de Earthion já começam turbinadas, e você ainda pode turbiná-las mais ainda pegando breguetes verdes. Durante toda minha campanha de Earthion, mesmo quando levei o game over, eu nunca, em momento algum, voltei para o tiro básico. Eu trocava de uma arma para a outra, mas podia fazer isso sem medo. Até é possível perder uma arma pintuda sem querer, mas para isso você precisa apanhar muito. Antes de perder, elas diminuem de nível e há breguetes verdes suficientes para isso raramente acontecer.

Outra coisa bacana é o uso de “escudos”. Em jogos de navinha de outrora, normalmente encostou em um inimigo ou em um tiro, você morre. Aqui você perde parte do escudo. E o escudo é recuperado ficando um tempo sem apanhar, como em um TPS de Xbox 360. Assim, as vidas e os continues são bem limitados, mas você não as perde tão rápido quanto em um papa-fichas tradicional. Isso deixa o jogo consistentemente mais divertido e mais intenso, já que a ação dificilmente é interrompida.

VIDAS LIMITADAS? E SEM SAVES?

Pois é, voz da minha cabeça. Você é esperta e percebeu o detalhe na frase acima. Earthion tem vidas e continues extremamente limitados. Na minha primeira partida, jogando no easy, eu cheguei até o último chefe, mas perdi nele minha última vida. Foi extremamente frustrante não poder escolher começar da última fase para tentar de novo. Normalmente jogos modernos de navinha resolvem isso permitindo que você selecione qualquer fase pela qual já passou para iniciar o jogo. Earthion não faz isso. Porque ele não tem save.

O que tem é um sistema de password. Assim que tomei o game over nas fuças, fui on-line buscar pela senha para começar da última fase. Mas aparentemente o jogo não permite isso. O que ele permite é usar passwords para começar sua campanha com upgrades e mais vidas, o que facilita consideravelmente. Aparentemente, no entanto, o jogo só dá a senha quando você mata o último chefe. Ou pelo menos eu não recebi a senha quando levei o game over. O que fiz foi pegar a senha de um caboclo que tinha 29 vidas e vários upgrades.

PASSWORD

Earthion, Yuzo Koshiro, Delfos

Com toda essa colher de chá, cheguei ao final até com mais vidas do que comecei. Então fica aí com a minha senha se quiser jogar o jogo direito, como os deuses do Mega Drive planejaram – e não levar game over no easy. Apesar de, com a password, você poder pular o grinding pentelho de um roguelite, nada justifica que essas coisas não sejam salvas. Se não era possível colocar um save no cartucho de Mega Drive, as versões para consoles atuais deveriam, sim, ter esta função. Cá entre nós, eu estou publicando minha senha aqui para você, mas também para mim. Assim, quando quiser jogar Earthion de novo, posso usar minha própria password para me divertir de verdade. Isso tudo é estranho, pois faz com que jogar Earthion em um emulador de Mega Drive seja automaticamente melhor. Afinal, você digita a password uma vez, faz um save state e nunca mais precisa lembrar dela.

Curiosamente, o jogo parece rodar em um emulador, já que apertar o touch pad abre um menu de emulador. Mas não tem save states. E também há alguma coisa muito errada com a navegação dos menus no PS5. Os botões são todos trocados. Se não me engano, o quadrado confirma e o X volta, algo que eu nunca vi antes e que deixa coisas como digitar as passwords ou mexer nas opções um suplício. E não, não é o estilo japonês, em que X e bola sāo invertidos. Talvez isso se deva ao fato de ser um jogo de Mega Drive. Curiosamente, o menu do emulador funciona da forma normal, com o X confirmando e o bola voltando. Acredito – e espero – que a navegação nos menus do jogo seja um problema a ser corrigido em breve.

A DIVERSÃO DOS 16-BIT

Eu adoro games que dão uma canseira no PS5. Experiências narrativas, com gráficos realistas, HDR, 4K, 120 fps e o escambau. Mas tem algo muito especial neste estilo de videogame antigo, pixelado, com músicas de chiptunes, onde cada zoom e rotação impressiona muito mais forte do que qualquer motion capture de hoje em dia. É como se em um jogo mais moderno, eu curtisse a experiência, a imersão. Enquanto em algo mais old-school, eu curta a parte do jogo propriamente dito. As mecânicas em primeiro lugar, e o audiovisual como algo que turbina minha diversão.

E isso, meu amigo, é Earthion. É um jogo de Mega Drive turbinado, que embora rode no console original, nunca caberia num cartucho dos anos 90. É um jogo de navinha old-school, usando técnicas de game design modernas, o que o torna muito mais gostoso de jogar hoje do que os clássicos de outrora. Se você é dos meus, e tem um forte apreço por este estilo de jogo que ficou lá nos anos 90 – e pelas mentes que já criavam jogos na época – não deixe de se unir às forças da Terra chamada Earthion. Corralion desligando.

REVER GERAL
Nota:
Artigo anteriorReview Platypus Reclayed: visual de massinha é muito fofo
Próximo artigoReview Forgive Me Father 2: indie perfeitamente realizado
Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
review-earthion-mega-drive-turbinadoDisponível: Windows, Switch, Mega Drive, PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series<br> Analisada: PS5<br> Desenvolvedora: Ancient, Bitwave Games<br> Editora: Limited Run Games<br> Lançamento: 18 de stembro de 2025 (consoles), 31 de julho de 2025 (Windows)<br> Gênero: Navinha<br>