Em cursos de criação, uma máxima muito comum é “as melhores ideias são as mais óbvias, mas que ninguém fez antes”. Bom Menino tem uma excelente ideia. Se milhões de filmes de terror anteriores têm cachorros na história, a assombração nunca foi vista do ponto de vista canino. E daí entra outra máxima da criação: não adianta ter uma ótima ideia se você não souber como executá-la.

CRÍTICA BOM MENINO

As mazelas de Bom Menino começam com uma péssima decisão criativa. O filme tem praticamente dois atores, o cachorro Indy e seu dono. Porém, com exceção de uma cena, o diretor decidiu por fazer quase o filme inteiro sem mostrar um rosto humano. Por mais que a gente goste de cachorros, e o Indy seja muito fofo, ver uma história sem rostos humanos elimina toda a empatia que sentiríamos pelos personagens.

Acredito que a ideia era justamente que você empatizasse apenas com Indy, mas se você não vê o rosto do seu dono, a impressão que dá é que o cachorro vê o dono como braços ambulantes que dão carinho e comida, não como uma pessoa real, de quem ele gosta e depende.

Infelizmente, minhas críticas a Bom Menino não param por aí.

CRITICANDO UM BOM MENINO

Bom Menino é muito curto. Com apenas 70 minutos, é um dos filmes de cinema mais curtos que você pode ver. E mesmo assim, ele é chato e dura mais do que deveria. Na história, o dono de Indy decide se mudar com o cachorro para uma casa herdada que sua família diz ser assombrada. Boa parte do filme, tipo mais da metade, mostra simplesmente a rotina dos dois. Assistindo TV, trocando carícias. O mais dramático que acontece é que o dono está doente.

E talvez esta seja a ideia da fonte do terror da coisa toda. E poderia render um bom filme. Um dono moribundo e o medo do cachorro que depende dele em perdê-lo. Mas não. Bom Menino é um terror sobrenatural, com todos os clichês e falta de qualidade típicos do gênero.

Na maior parte do tempo, o terror é bem sem vergonha. Indy olha para uma área escura e uma luz se acende e se apaga. Em outro momento, Indy olha para uma janela e nada acontece, mas ela é filmada com zoom e trilha sonora assustadora, para dar a sensação de que tem algo terrível ali (não tem). Quando finalmente coisas de verdade começam a acontecer, é simplesmente tarde demais. Você já viu 50 minutos de nada em um filme de 70. E daí entra o fato de que o único ator humano não tem rosto nem personalidade.

CRIANDO UM BOM MENINO

Bom Menino, que é um título genial, aliás, parece ter sido feito com o coração no lugar certo. Por exemplo, a equipe de produção tomou cuidado para não estressar o cachorro durante as filmagens. Muito legal. Afinal, não é certo você torturar um ser vivo para fazer um filme, especialmente um que nem sabe o que está acontecendo. Fico pensando como eles fizeram para que Indy de fato atuasse e, em algumas cenas, até mostrasse medo. Talvez este seja o aspecto mais interessante do filme.

Bom Menino viralizou na internet por causa de sua premissa chamativa e, para minha surpresa, gerou um movimento de pessoas que simplesmente não queria assistir ao filme se o cachorro morresse. Ora, um personagem morrer ou não é algo que deve ser levado pela história. Me parece muito precipitado, muito “não vi e não gostei“, resolver que você não gosta de um filme se um personagem morre. Pense o que seria de Bambi ou de O Rei Leão sem suas mortes famosas, por exemplo. Obviamente, eu não vou falar aqui se Indy morre, mas se isso te preocupa e é determinante para você assistir ao filme, é bem fácil encontrar a resposta.

Então o que temos aqui é uma ideia fantástica mal realizada. Um filme de terror sobrenatural que tem um gimmick único e chamativo, mas o desperdiça sendo apenas mais um. E um muito chato.