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Crítica A Vida Secreta de Meus Três Homens: pesadelo com ótimos cenários

Mas o filme quase não tem cenários.

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A Vida Secreta de Meus Três Homens, Letícia Simões, Embaúba Filmes, Delfos

Não quero parecer cruel ao dizer isso, mas A Vida Secreta de Meus Três Homens não é um filme. Toda a montagem, cenários e roteiro denota que é, na verdade, uma peça de teatro que, por acaso, foi filmada. E é isso que a gente assiste. Como tal, várias ferramentas comuns no cinema, como montagem, figurinos e cenários acabam ficando em segundo plano – ou sendo totalmente deixados de lado.

CRÍTICA A VIDA SECRETA DE MEUS TRÊS HOMENS

Dito isso, a temática é interessante. E também é autobiográfico. A diretora Letícia Simões tem em sua família três pessoas que fizeram parte de situações e momentos importantes da história brasileira. Mas arrisco dizer que a história de pessoas assim são relativamente desconhecidas hoje.

O filme começa com seu avô, que foi um cangaceiro. Já seu pai trabalhou para a ditadora. Por fim, seu padrinho era negro e gay, em uma época especialmente cruel para pessoas com estas características. São três homens que foram muito importantes na vida da diretora e, neste filme, vemos uma atriz a representando enquanto conversa com cada um dos três. A Vida Secreta do título é o tema da conversa, que aborda justamente coisas que não eram comentadas livremente pelos três com a moça.

QUEM REALMENTE É O VILÃO?

Uma coisa curiosa é como a Letícia personagem trata os três homens de forma diferente. Obviamente, ninguém com cérebro hoje em dia trataria mal alguém por ser gay ou negro. Mas ela é muito gentil também com seu avô, mesmo sabendo que ele fez coisas horríveis no passado. Ok, podemos pensar que a ideia do filme não é o conflito, mas entender a cabeça das pessoas. Legal. Mas por que, então, ela confronta tão fortemente o pai, por ele ter trabalhado para a ditadura? Penso que ele e o cangaceiro não estão muito longe um do outro, ainda que em lados opostos da política.

Talvez até pela hostilidade da filha personagem, a parte do pai é a mais interessante do longa. É também a que menos fala sobre o que de fato ele fazia ou viu durante sua função. É até engraçado pensar que o trabalho dele na ditadura era algo secreto, mas a própria diretora conta que o pai falava para a mãe que ia comer pizza com a filha e a levava a um prostíbulo. Caramba, para alguém que faz isso, não parece que a ditadura realmente estaria fora dos limites de conversa.

Fico em dúvida se este filme foi roteirizado da forma tradicional ou se simplesmente apresentaram os personagens aos atores e deixaram a conversa rolar de forma improvisada. Seja como for, todos os atores estão ótimos e realmente convencem em seus papéis. Meu problema com A Vida Secreta de Meus Três Homens é justamente o que falei no início: ele é uma peça, não um filme. E não digo isso por ele ser focado em diálogos, o que você sabe que eu adoro. Não, ele é simplesmente feio, desinteressante de assistir, apesar de os assuntos abordados e as conversas serem extremamente interessantes.