Talvez eu não seja o público de Iron Lung. Eu nunca tinha ouvido falar de Markiplier (Mark Fischbach) antes deste filme estrear lá fora. Pelo que li, o público do Youtuber é o principal responsável pelo enorme sucesso comercial do filme. Eu também não joguei o videogame no qual ele é baseado. Porém, meu colega de Ludologia, Yohan Barcz, falava bastante deste jogo em nosso podcast. E seu conceito minimalista, claustrofóbico e de baixo orçamento parecia ser muito eficiente para um jogo de terror.

Eu sinceramente não sei se gostaria do jogo. Simplesmente parece que o ato de jogá-lo não seria algo aprazível para mim, embora a proposta seja interessante. Porém, um jogo cujo ato de jogar é agradável pode ser bacana mesmo contando uma história ruim. O mesmo não pode ser dito de um filme. Atmosfera tem mais peso em games, enquanto a história é muito mais forte em um filme. E talvez este seja o problema de Iron Lung: a história é muito ruim.

CRÍTICA IRON LUNG

Iron Lung conta a história de um condenado para quem prometem a liberdade se ele topar descer num oceano de sangue em um submarino. Tanto o jogo quanto o game têm uma proposta minimalista, com o grosso de sua narrativa acontecendo dentro do tal submarino. Inclusive, Mark Fischbach é o diretor, roteirista e o único ator que mostra a cara em boa parte do filme. Provavelmente Iron Lung é o mais próximo que o cinema pode chegar de uma obra de uma pessoa só, embora algumas outras figuras conhecidas dos games, como Troy Baker e Alanah Pearce, tenham papéis pequenos. Gosto de pensar que o Mark saía de casa de manhã, ia para o set e começava a filmar sozinho seu próprio roteiro, embora não ache que a coisa tenha sido assim tão artesanal.

O problema é que esta pegada minimalista prejudica muito o filme. Boa parte das duas horas de duração envolve o protagonista preso no submarino com as luzes apagadas, carregando uma lanterna. Assim, a tela fica totalmente preta, apenas com um pedacinho de movimento difícil de entender no meio dela. Em vários outros pontos, simplesmente parece que nosso herói está vendo coisas. Quando começa a cair sangue do teto do submarino, parece que há um vazamento, já que o oceano é de sangue. Porém, mais para frente começa a parecer que é o próprio submarino que está sangrando. É daí para baixo.

O DOBRO DO JOGO

É curioso que o jogo é uma experiência pensada para durar menos de uma hora. Porém, sua versão de cinema dura mais de duas. Ou eles encheram muita linguiça ou inventaram muita coisa que não está na obra original. Ou, você sabe, os dois. O resultado é um filme longo e arrastado. Cinema é uma linguagem audiovisual e simplesmente não há muito para se ver por aqui. E quando de fato acontecem coisas, são tão estúpidas e mal pensadas que eliminam qualquer tensão que você possa estar sentindo. De novo, isso não é um problema em um videogame com atmosfera e gameplay bacanas, vide Resident Evil.

Sei lá, talvez este tipo de história opressiva, mas sem muito para ver funcionasse bem em uma mídia não visual, como a literatura. Mas sinceramente, a história em si é tão ruim, mas tão ruim, que é difícil aceitar que ela daria certo em qualquer mídia, a não ser nos games. Isso, claro, se o filme realmente foi fiel ao videogame o que imagino que não seja o caso. Assim, posso bater o martelo: realmente o sucesso de Iron Lung no cinema gringo se deve à popularidade do Youtuber que o estrela, porque se depender da qualidade da obra… iécati. A coisa é nível Uwe Boll, se o Uwe Boll não tivesse dinheiro para fazer filmes.

REVER GERAL
Nota:
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
critica-iron-lung-reviewTítulo original: Iron Lung<br> País: EUA<br> Ano: 2026<br> Duração: 2h5m<br> Distribuidora: Paris Filmes<br> Direção: Mark Fischbach<br> Roteiro: Mark Fischbach, David Szymanski<br> Elenco: Mark Fischbach, Caroline Kaplan, Troy Baker<br>