Lá pelo longínquo ano de 2009, eu joguei Killer7, um obscuro game do diretor Suda51 para PlayStation 2 e Game Cube. Não vou me estender muito sobre este game, mas basta dizer que, quando eu o zerei, coloquei o controle de lado, sentei na minha cama, fiquei uns 10 minutos em silêncio, suspirei e disse para mim mesmo “mas o que baralhos eu acabei de ver?”

De lá pra cá, eu joguei muitos outros games, alguns com histórias realmente cativantes e surpreendentes, mas nenhum derreteu o meu cérebro da mesma forma que Killer7. Pelo menos até jogar Phantom Trigger, o novo game do estúdio de dois homens BreadTeam e distribuído pela tinyBuild, que chega hoje na Steam e no Nintendo Switch.

“TODAY IS THE FIRST DAY OF THE REST OF YOUR LIFE”

É com estas palavras que o game começa, mas apesar do ar pesado e misterioso, o que vem a seguir é bem normal. A primeira cena se passa em uma cozinha normal, onde um cara normal chamado Stan conversa com sua esposa normal chamada Pam sobre um café da manhã normal.

Será que as panquecas suecas na Suécia chamam só panquecas?

Durante o diálogo, Stan desmaia do nada absoluto, a tela fica preta por alguns segundos e então aparece um sujeito de pele azul e cachecol verde navegando em um barco por um mundo surreal onde tudo parece ser iluminado por neon. Normal, né?

Mas a verdade é que esse sujeito está tão perdido quanto a gente e não faz ideia de onde está. No primeiro cenário encontramos alguns personagens surreais, como um sapo chamado Toad, que chama nosso protagonista de “Outsider” (Forasteiro), e Ant, uma mulher com antenas de formiga na cabeça. Após conversar com eles, você estará pronto para entrar pelo portal e começar sua aventura.

Ao longo do game, encontraremos partes aonde a tela começa a se distorcer, como se fosse interferência em uma TV antiga, onde assistiremos a pequenos momentos da vida de Stan. Qual a relação dele com o Outsider e o mundo em que nos encontramos? Vou discutir isso mais para frente, mas primeiro quero falar sobre o game em si.

Aliás, um pequeno adendo: esta aqui é a tela inicial do game, que mostra o Outsider em toda a sua glória. Se você for um delfonauta mais velho que curtia uns games mais cults, tente se perguntar se ele não te lembra alguém.

“I know you, Raziel. You are worthy”.

HARDCORE NEON SLASHER

Explicar as mecânicas de Phantom Trigger é um pouco esquisito, porque ao mesmo tempo que o game é bastante simples e familiar, ele também é único e complexo.

O game é uma mistura de adventure 2D com dungeon crawl, pois nele exploramos cenários imensos e labirínticos cheios de obstáculos, bifurcações, armadilhas, puzzles e, claro, inimigos a rodo.

Para sobreviver a este mortal ambiente, nosso protagonista conta com a ajuda de três armas: um chicote de luz que puxa inimigos e objetos e pode ser usado em todas as oito direções, uma espada de gelo que é rápida mas tem um alcance curto e um par de manoplas de fogo que têm um alcance médio e são lentas. Para usá-las, basta apertar o botão a que elas são atribuídas (Y, X e B ou rodinha, botão esquerdo e direito do mouse, respectivamente). É simples, mas bem efetivo e fluído, como você pode ver no trailer abaixo.

Cada arma possui seu próprio nível, que vai de 0 a 7. Conforme você vai subindo os níveis, libera novos combos que são muito úteis e até causam alguns efeitos, como atirar projéteis ou congelar ou incendiar seu inimigo.

Há também uma habilidade híbrida de dash/teleport. Ao apertar o A ou a barra de espaço enquanto seu personagem está em movimento, seu personagem desaparecerá por um instante e reaparecerá alguns metros adiante, tudo isso em menos de um segundo. Você pode usar isso quando quiser, sem precisar de recarga, cooldown ou o que for, o que permite criar interessantes estratégias combinadas com o uso das armas.

Mas talvez a maior característica de Phantom Trigger não seja seus belos cenários, seu combate fluído, seu visual surreal ou sua história bizarra (já vamos chegar lá), mas sim o fato de que o jogo é difícil pra burro! Lembra aqueles games clássicos dos anos 80 como Ninja Gaiden e Shinobi? Então, esse nível de difícil. Pra começo de conversa, a dificuldade padrão do jogo é a Hard. A minha sorte é que eu sempre fuço nas opções antes de começar um game, então eu troquei imediatamente pra Normal, mas ainda assim foi bem difícil.

Prepare-se para ver esta imagem várias e várias vezes.

Como eu disse lá em cima, existem inimigos a rodo e todos eles têm uma habilidade específica: alguns são bastante resistentes, outros soltam bombas, causam dano em área, atiram lasers da morte que atravessam a tela quase toda e assim vai.  No começo do game é tranquilo, mas não demora muito para você começar a enfrentar em quantidades bem grandes, tipo seis ou oito ao mesmo tempo, todos com padrões de ataques bem diferentes e que vão te obrigar a pensar no melhor jeito de sair de cada situação perdendo a menor quantidade de vida possível.

Os inimigos arrancam uma quantidade considerável de dano e um erro de cálculo pode te enviar para o Game Over em poucos segundos. Quando você derrota alguns adversários, eles podem soltar um pequeno quadrado roxo que recupera uma parte da sua barra de energia, mas eles raramente são o suficiente. Por outro lado, sempre que você passar por um dos muitos checkpoints, sua vida será completamente restaurada.

Os quatro chefes são um show à parte. Todos possuem um design único e bater neles não adianta em nada. É preciso descobrir um jeito específico de deixa-los vulneráveis primeiro, para depois descer a porrada. Alguns você só precisa desviar dos ataques até que exponham sua fraqueza, mas outros requerem um estudo detalhado do cenário para descobrir como atingi-los.

Uma típica boss battle.

Uma coisa que eu achei bem legal em Phatom Trigger é que apesar de sua dificuldade absurda, ele não é frustrante, pelo menos para mim. Não me leve a mal, delfonauta. Eu morri várias vezes nesse jogo. Morri centenas de vezes. Só que sempre que eu morria, eu me sentia motivado a tentar de novo.

Repensava tudo o que eu tinha feito de errado e pensava em novas abordagens para aquela parte, pensando que deveria atacar outros inimigos ou evoluir um pouco mais para liberar novos combos. E eu achei essa sensação muito legal… na maioria das vezes. Algumas eu realmente ficava irritado e apertava o F4 xingando o jogo, mas dava uma horinha e eu já queria voltar de novo.

A TRAMA DERRETEDORA DE CÉREBROS (CONTÉM ALGUNS SPOILERS)

Eu sei que é meio complicado falar da trama de um jogo que mal lançou, mas Phantom Trigger me deixou tão encafifado que eu preciso comentar sobre ela. Vou tentar não dar nenhum spoiler muito pesado, mas poderei dar alguns leves.

Lembra-se do Stan, que desmaiou lá no começo do jogo? Então, ao longo do game vamos descobrindo que ele na verdade está com uma doença terminal gravíssima. O médico dá a ele a opção de operar, mas por algum motivo, ele se recusa a fazer a cirurgia e opta pelo tratamento alternativo, ainda em fase de testes.

Porém, durante o tratamento, Stan começa a ter alucinações e começa a se consultar com uma psicóloga e nessas consultas descobrimos alguns fatos curiosos sobre a vida de Stan e sobre seu relacionamento com Pam.

Por um tempo, eu pensei que a relação entre Stan e o Forasteiro fosse bem óbvia, mas há um certo plot twist ao longo do caminho que muda completamente as coisas, deixando-as bem mais misteriosas e interessantes.

O final do game é algo que me deixou com uma bela cara de “WTF” e eu realmente me recuso a acreditar que fiz o final verdadeiro. Eu tentei explorar um pouco mais do game depois que zerei, mas não achei nada que me desse alguma dica de como mudar as coisas antes do fechamento desta resenha, mas sem dúvida é algo que eu procurarei no futuro.

PONTOS NEGATIVOS

Phantom Trigger tem falhas. A que mais me incomodou foi o sistema de level up.

Como eu disse lá em cima, cada arma tem o seu nível e quando você atinge um certo nível, você libera um combo. Porém o dano da sua arma não aumenta. A espada sempre causará 20 pontos de dano e as manoplas sempre causarão 30, o que torna este sistema de níveis única e exclusivamente útil para liberar os combos, que não são tantos assim também, apenas oito.

Também não há nenhum tipo de upgrade para a sua vida ou alguma armadura para receber menos dano. E eu sei que a intenção do game é ser desafiador, mas um pouco mais de dano ou resistência não fariam mal contra alguns inimigos, especialmente os da quarta dungeon.

Uma coisa que eu achei bem inútil foi o sistema de sidequests. Na primeira tela do game, existem alguns personagens que pedem que você lhes dê itens específicos, que são encontrados ao longo das dungeons. Só que de início, eu passei totalmente batido por estes personagens e fui direto pra primeira masmorra, aonde mesmo assim eu encontrei os itens e entreguei pra eles quando voltei à tela inicial, no fim da primeira masmorra.

A galera da Sidequest reunida.

Até aí tudo bem, só que eu não ganhei absolutamente nada em troca. Nenhum item especial, nem um bônus de experiência para minhas armas, nem um tapinha nas costas. Depois de entregados estes itens, os personagens pediam, obviamente, novos itens.

E eu até achei alguns ao longo da segunda dungeon, só que… eu não tive mais oportunidade de me encontrar com estes personagens. Sempre que eu voltava pra tela inicial, eles não estavam mais lá, me deixando com alguns itens inúteis em meu inventário. Será que é algum bug ou eu fiz alguma coisa errada? Vai saber.

VEREDICTO

De qualquer maneira, Phantom Trigger é um jogo belíssimo e desafiador, com uma história no mínimo intrigante com algumas reviravoltas inesperadas e cujo final bizarro realmente me deixou intrigado querendo mais.

CURIOSIDADES:

– O game possui um modo Co-Op local, no qual o segundo jogador é uma cópia exata do Outsider, mas com pele verde. Parece que isso deixa as coisas mais fáceis, né? Bem, só parece. É que apesar de você ter dano em dobro, os dois personagens dividem uma mesma barra de energia, ou seja: é preciso muita coordenação e trabalho de equipe para sobreviver nessa empreitada. Infelizmente, só testei isso por alguns minutos, alternando entre o controle e o teclado, pois não consegui ninguém para jogar comigo.

– A produtora identifica Phantom Trigger como um “hardcore Neon Slasher with RPG and Roguelike elements”. É um nome bem legal, não acha?

PROMOÇÃO

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Lucas Fernandes Corrêa
Lucas Fernandes Corrêa teve seu senso crítico forjado por games, HQs de super-herói e bandas de metal épicas que quase ninguém conhece. Para ele, quanto mais exagerado, prepotente, pomposo e gloriosamente ridículo for algo, melhor e mais divertido.
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